Kama Zutra

O Zénite zurzidélico do Zuni-K

segunda-feira, 6 de outubro de 2008

Ereções 2008

Ok, vamos considerar que você tem um tumor no cérebro do tamanho de uma laranja (lembrando que a laranja corresponde ao tamanho do tumor, não do seu cérebro). Seguindo um silogismo simples, uma vez que você não é fã do NX Zero não pretende morrer tão cedo, logo, vai atrás de um tratamento. Eis que se depara com duas situações:

No canto direito do ringue, pesando uma pós-graduação e uma vida inteira dedicada ao tema você tem um neurocirurgião, que lhe recomenda uma cirurgia de remoção e um tratamento minucioso, com posterior combinação de tratamento químico e terapêutico.
No canto direito do ringue, portando uma garrafa de cachaça, um conhecimento enciclopédico sobre a grade da Globo e ostentando uma indiferença absoluta sobre tumores cerebrais e sua culinária exótica, temos uma bancada composta por um funileiro, dois cantores sertanejos, um juiz de futebol, quatro adolescentes histéricas e um pai-de-santo te recomendam que você reze três pai-nossos, tome um copo de água com vinagre de ponta-cabeça, coloque um dente de alho embaixo do travesseiro antes de deitar e dance a dança do quadrado assim que acordar. Ah, claro, usando uma cueca vermelha tingida no sangue de uma sapa grávida.

E aí, você segue quem?

..............................................?
...................?
....................................?
........................?
...............................?

Se você escolheu ouvir o médico, então meus parabéns, você é uma pessoa anti-democrática!


Afinal, porque raios o seu tumor seria mais importante do que os rumos políticos, econômicos, sociais e culturais de toda a nação?

Fato é: o caso ilustrado pela bancada da segunda situação é aplicável em duas vias: eleitores e governantes.

Na primeira via, a dos eleitores, temos que engolir nosso orgulho besta e aceitar o fato de que o Brasil, de modo geral, é composto por uma imensa micareta de analfabetos políticos. Nós (eu não sou “nós”, e se você leu até aqui, provavelmente também não seja, mas o seu cunhado corinthiano de chinelo e regata certamente é!) não gostamos de assistir a debates, e se assistimos não entendemos nada. Não lemos jornal (quadrinhos, horóscopo e programação de cinema nããão cooon-taaaam), assistimos o jornal nacional só pra esperar a janta ficar pronta e não nos lembramos dos candidatos em que votamos na última vez (a maioria não lembra nem de quem concorreu. Faça uma pesquisa aí na sua casa, pergunte o nome de quatro candidatos a presidência da última eleição. Uma bala Juquinha pra quem tiver um resultado animador). Logo, somos um povo incapaz de eleger corretamente. Mais vale, então, a opinião de um cientista político, sociólogo ou economista do que a de quatrocentos fãs da Hebe.

Na segunda via, a nossa (do seu cunhado comedor de Fandangos) incapacidade de acompanhar, interpretar e avaliar a política nacional colocou num terno bonitinho vereadores como Netinho de Paula, o jogador Túlio Maravilha, Frank Aguiar, Aguinaldo Timóteo... Mas o grande campeão da vez foi mesmo o travesti dançarino de pagode Leo Kret do Brasil, o quarto candidato mais votado em Salvador. Ô, se coronel ACM tivesse vivo ainda, rancava-lhe o coro à pexera... E a política nacional ainda é tão séria que foi por muito pouco que não elegemos figuras de alto nível como Sérgio Malandro, Rita Cadillac, Gretchen (meu deus, como foi que deixaram o Zeca Urubu fazer um filme pornô??), cinco ex-BBB's, o ex-artilheiro do corinthias Dinei, Kid Bengala... o freak show é enooooorme... veja você, menina, que em São Paulo o Maluf teve uma votação mais expressiva que a Soninha!

Antes que venham os moralistas, os fãs da Lya Luft e as aberrações pseudo-marxistas à lá Loser-manos me ferver em óleo e alcachofras, aviso que não sou um totalitário elitista preconceituoso qualquer. Como bom anarquista (não Antanquista. Vide Wikipédia), sou totalmente a favor do poder nas mãos do povo. No entanto, a “democracia” como a temos decididamente NÃO É um regime que coloca poder nas mãos do povo. É antes um engodo pra engabelar ilusoriamente um povo, que fica alegrinho achando que assim fez a “sua parte” para um país mais bonitinho, fofo e miguxo. Qualquer relação de poder vertical ou representatividade é naturalmente anti-democrática, e blábláblá.

Mas enfim, foda-se, não é a ideologia política que importa aqui, e sim a crítica desmesurada e preconceituosa. Pra opiniões sérias, ligue no disk-Zúnica 24h, com o número do seu boleto de pagamento em mãos, que eu explico de onde vem a revolução e pra onde foi a sua filha/irmã/namorada/melhor amiga sábado passado.

Voltando à vaca fria, qual seria a situação pra mudar o país? Mude-se! Eu sou Brasileiro e não desisto nunca da minha cidadania européia. Mas já que a passagem é cara, o negócio é mesmo pegar uns livros, desligar a televisão um pouco e se ligar nos políticos do seu país (que fique bem claro: SEU país), trabalhar pra tentar alavancar a educação de pelo menos uma pessoa (seu cunhado fã de Zeca Pagodinho é um bom começo) pra que um dia o prefeito seja um nome mais conhecido na sua cidade do que o técnico da seleção, e nós não tenhamos mais que ver a cara nojenta do Leo Áquila no horário político em plena hora do jantar.

Já é algum progresso...
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terça-feira, 30 de setembro de 2008

Porque eu odeio médicos

Já fazia quatro noites que não dormia por causa da tosse. Subia uma escada, o ar fugia. Na garganta, algo como uma bola de sebo e cacos de vidro se fazia evidente toda vez que as palavras tentavam correr pra fora. Começava a desconfiar que talvez aquele papo todo de imortalidade não fosse verdade, e o trato que eu fiz com Deus fosse realmente coisa da minha cabeça..

O fim de semana foi de curas xamânicas. Chá de alho com gengibre, infusão de camomila, bolsa de água quente e, sobretudo, muito conhaque. Nada funcionou. Eram sete horas da manhã de uma segunda-feira macielnta quando resolvi que procuraria aqueles pervertidos de branco que se auto-intitulam doutores. Cara, eu odeio médicos.

Hospital: uma hora de espera escarrando como um lhama gripado, sentado numa ridícula cadeirinha de plástico bege, espremido entre uma mulher com uns doze filhos e uma gorda usando um vestido de estofamento de sofá dos anos setenta e comendo salgadinhos como se fossem arrancar o pacote das mãos oleosas dela a qualquer minuto, de olho em um uma televisãozinha em que a Ana Hickman dava dicas para combinar o biquini com a sandália, que oscilava a imagem com rompantes de chuviscos toda vez que o painel eletrônico apitava com a senha para que o próximo boi enfermo fosse para o abate. Cara, eu odeio hospitais.

No consultório, o médico lê o questionário constrangedor que a enfermeira me fez responder, incluindo um histórico de todas as drogas lícitas e ilícitas que já consumi, todos os tratamentos aos quais já fui submetido e o número de parceiras sexuais que tive nos últimos seis meses, separados entre com e sem preservativo - conta essa que me tomou um tempo considerável e um esforço de memória sobrehumano. Depois ele ouve meu peito com aquele fone de ouvido bizarro, me pede pra dizer “trin-ta-e-três, olha a radiografia do meu pulmão, faz meia dúzia de anotações e carimba uma folha. Aí ele lembrou que eu tava lá e sabia falar, e me disse:
- Sabe, rapaz, eu acho que isso pode ter a ver com o fato de você fumar
- ...
- ... (sorriso estúpido)
- Ah... é?
- ... (sorriso muito estúpido)

- PORRA, JURA MESMO DOUTOR???? É PRA ISSO QUE VOCÊ ESTUDOU CINCO ANOS NUMA PORRA DE FACULDADE, FEZ RESIDÊNCIA E ESPECIALIZAÇÃO?? PRA ME OLHAR COM ESSA CARA DE BOSTA, DEPOIS DE ME FAZER ESPERAR DUAS HORAS PRA SER ATENDIDO, E ME DIZER, COM TODA A SUA SAPIESCÊNCIA CLÍNICA E EMBASAMENTO CIENTÍFICO, QUE FUMAR FAZ MAL PRO MEU PULMÃO???
- ...

- arf, arf, arf... cof cof... arf, arf...

- É... eu acho...


Me receitou um antibiótico e Tylenol pro caso de eu sentir dor. Boa tarde e passar bem.

Cara, eu odeio médicos...

quinta-feira, 25 de setembro de 2008

Tá-dááááááá!!!!

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Tá, to entediado. Odeio ficar entediado. Então, por causa do meu mau-humor bipolar, decorrência (des)astr(e)ológica de ser geminiano com ascendente em Gêmeos e lua em Peixes, resolvi chutar o balde outra vez e descontar meu tédio na internet. Eu já fiz isso em outra ocasião, mas dessa vez eu J-U-R-O que vai ser pra valer.

Tô inaugurando esse novo espaço pra poder escrever de tudo um pouco, contar as coisas que ninguém tem paciência de ouvir pessoalmente e dar piti e ataque de pelanca sem ser chamado de viadinho na cara larga. E o melhor de tudo, sem me preocupar com correção, sem me preocupar com coerência e, principalmente, sem me preocupar nem um pouquinho que seja com VOCÊ, caro leitor! Sim, porque eu vivia em crise com a periodicidade e com a qualidade do ProzacZone, e agora eu estou, literalmente, cagando e andando com isso. E acredito que será justamente esta cagandandância que trará uma periodicidade legal. Sim, pois agora chega de me enfurnar num complexíssimo ritual de madrugadas a base de conhaque e Tom Waits pra escrever um texto bem estruturado, original e divertido. Quem quiser isso, que compre meu livro (que ainda não saiu, mas que com muita fé vai ser lançado um dia, e você vai comprar um exemplar pra você e mais três pra dar de presente nos sorteios de amigo-secreto do seu escritório no natal).
Agora eu estou a vontade pra escrever coisas em cinco minutos no escritório enquanto minha chefe estiver ocupada fazendo o trabalho urgente que eu deveria ter feito na noite passada, mas não fiz porque fiquei assistindo vídeos pornô caseiros. Me sinto livre, leve e solto, exatamente como uma menina andando de bicicleta em um comercial de absorventes!

Vamos falar de cinema, de livros, de televisão, da minha interessantíssima vida profissional e sexual, vamos ter a republicação dos meus textos favoritos do Prozac quando eu estiver com preguiça de escrever ou bater saudades de ler. E vamos ter até(ora, e por que não?) novos textos bem estruturados, poéticos ou não, emocionantes ou não, interessantes ou não. A palavra de ordem é FODA-SE! E três vivas para o pouco-caso e o cinismo desmesurado! Hip-Hip-Porra! Pau no cu e um real no meu bolso!

É isso aí. Espero não desistir disso aqui na terceira postagem como fiz das outras vezes. Ah, sim, o Prozac ainda vai ser atualizado, e eu prometo colocar um botão aí do lado pra linkar ele, ok? Mas se eu mudar de idéia o problema é meu, que ninguém lava minhas cuecas nem paga minhas contas.

(Merda, onde foi que eu coloquei os meus cigarros??)

sexta-feira, 22 de agosto de 2008

Luz, Gelo e Óleo de Cozinha num Quarto de Nabokov

Gelo e óleo de cozinha. Eram imprescindíveis, á despeito de todo o equipamento tecnológico, de todas as luzes e flashs e photoshop, o gelo e o óleo de cozinha não podiam ficar de fora.

Quando eu era criança, todos os garotos do condomínio se reuniam na garagem pra ver revistas de sacanagem. Olhávamos, repetíamos palavrões que ouvíamos de nossos pais, e no final concordávamos que a profissão ideal era fotógrafo de mulher pelada. E agora lá estava eu, com uma câmera, um quarto de hotel, uma menina sobre a cama, gelo e óleo de cozinha, e me perguntava, onde estava aquele glamour, todo aquele tesão de pré-adolescente?

Não é que a menina não fosse atraente. Era lindíssima.O corpo escultural, devidamente esculpido á golpes de bisturi sobre uma mesa de inox, pago em trinta e duas vezes no cartão de crédito; os olhos azuis de vidro, umedecidos com soro fisiológico; os lábios injetados; a cabeleira oxigenadamente loira; os cílios postiços... um corpo de mentira, como os orgasmos de mentira, as carícias de mentira, as caras e bocas de mentira de que vivia a menina. Mentiras de aluguel para homens que mentiam para as esposas em casa, que mentiam pra si mesmos, com suas mentirosas felicidades feitas de carros luxuosos, ternos italianos, clubes de pôker, famílias de plástico e meninas como aquela. O sucesso nojento de um mundo canibal. Eu era pago pra produzir belas mentiras, com luz, gelo e óleo de cozinha.

Antes eu fotografava peças de catálogos de autopeças, canetas e outras babaquices quaisquer. De vez em quando pintavam alguns casamentos e aniversários. Foi em um casamento que eu conheci o Álvaro, um gay gordo com anel dourado no mindinho. Conversamos sobre o ridículo ritual pré-nupcial católico, ele pediu meu cartão e disse que tinha um serviço pra mim. Ele estava abrindo uma agência de acompanhantes para executivos, e queria que eu fotografasse as meninas. Dinheiro grande pra um falido como eu.

O processo era complexo. Álvaro me ligava quando uma menina nova entrava pra o casting, me passava os dados dela e marcava um encontro em um café. Passávamos a tarde e a noite conversando e bebendo, pra que ela se sentisse á vontade comigo, como se fosse um amigo ao invés um açougueiro expondo um pedaço de vitela num gancho. Eram todas universitárias poliglotas que precisavam bancar os estudos, as roupas de grife, as baladas e a cocaína, pra não ficarem deslocadas entre a filhas de desembargadores e juízes da faculdade. Falávamos sobre arte, sobre futilidades e sobre a vida delas. Geralmente a noite acabava com a menina chorando, bêbada, confessando as dificuldades da vida de prostituta e o orgulho dos pais, na cidadezinha de interior, por ter uma filha que estudava e trabalhava tanto. Ou, ás vezes, com a imbecil exaltando uma filosofia epicurísta transfigurada em frases de auto-ajuda feminista pra disfarçar com indiferença o njo que sentia de si mesma e a vergonha de não conseguir ser mais do que uma boceta bem paga. Tornei-me mais psicólogo do que fotógrafo.

A sessão acontecia em duas fases. Na primeira eu fotografava books inocentes. Álvaro montou uma agência de modelos de fachada, que servia como álibi para os pais das meninas não desconfiarem de nada. Assim, periodicamente elas podiam enviar pra casa fotos de supostas campanhas para revistas e lojas, e justificavam o dinheiro que certamente não ganhariam como garçonetes de alguma espelunca. Na segunda fase, fazíamos as fotos do site.

Álvaro alugava sempre duas suítes em lados opostos do hotel, de modo que as janelas apontassem sempre na direção do sol. Eu dispensava maquiadores, preferia que elas trouxessem uma amiga que lhes ajudasse, pra ficarem mais á vontade. Nunca ficávamos sozinhos na sessão. Elas ficavam nervosas. É engraçado como entravam facilmente nas personagens com os clientes, mas eram apenas meninas comigo.

Eu dispensava também os grandes equipamentos de iluminação. Tripés e spots de luz fazem o ambiente parecer uma sala de cirurgia. Funcionam pra revistas pornográficas e books de moda, mas executivos queriam meninas, como as amigas de suas filhas pelas quais se masturbavam depois de deixar as crianças no colégio. O equipamento consistia basicamente em uma câmera, um aparelho de som, tecidos e uma ou duas garrafas da bebida favorita delas.

Começávamos com algumas fotos sem importância, só pra descontrair. As primeiras cinqüenta fotos eram lixo. Então eu seguia servindo os copos. Usava copos escuros, de modo que podia encher o da menina de bebida e o meu com metade de água. Ela bebia, dançava, ria muito, fumava. Então eu lhes passava o óleo de cozinha no corpo, pra dar textura. Elas ficavam soltas, mas a pele precisava ficar arrepiada, os bicos dos seios precisavam ficar eriçados, e aí entrava o gelo nos mamilos. Então, depois de muita bebida, um pouo de óleo de cozinha e gelo, voilá! Meu trabalho estava terminado. Então eu chamava um taxi pra elas e voltava á pé.

Depois de cada ensaio eu ia sempre pra o mesmo bar, enchia a cara e passava a noite pensando no que seria daquelas meninas. Elas ganhariam o dinheiro dos porcos que forjavam congressos em São Paulo pra se divertir, gastariam tudo da maneira mais supérflua possível, e se achariam vagabundas toda vez que a ressaca batesse de manhã. Então, em quatro ou cinco anos estariam formadas. Médicas, advogadas, publicitárias, dentistas. Casariam com os filhos dos ricaços asquerosos que tinham se esfregado nos seus corpos jovens, teriam filhas e passariam madrugadas preocupadas enquanto essas filhas estariam em festas. Dariam conselhos. Freqüentariam a igreja e as reuniões da Associação dos Amigos do Bairro, e sofreriam de ciúmes quando seus maridos viajassem para os congressos fora da cidade, pra se divertir com as filhas universitárias de suas antigas colegas. Que pesadelos teriam essas meninas nos próximos vinte anos? Como seria viver com o medo do passado vir a tona, em um site perdido na web, em um catálogo perdido em uma gaveta de um velho executivo? Viveriam elas com esse medo, pensariam nisso ou eu superestimava o senso de humanidade e a inocência daquelas meninas? Meu lado altruísta esperava que sim. Meu lado egoísta esperava que não. Sempre preferi ser egoísta. Um brinde à Stirner, Nietzsche e demais ofídicos de pena e tinta!

Durante os cinco meses em qeu fotografei para o Álvaro, posaram cinquenta e oito garotas. Nunca me deitei com nenhuma delas. Elas eram só meninas. Eu era a prostituta ali.

Durmam bem, meninas. Tenham bons sonhos.

sexta-feira, 8 de agosto de 2008

Noctâmbulos





Pesam as pálpebras, cortinas cobrem retinas. Observo a Lua, leve no céu. Leva-me leve a Lua aos céus baixos em mim, fobias, fantasias, fantasmas dançando nus o tango do delírio.


Na janela jaz a rua em paz, sem pés que passem apressados, carros rodando sem rostos atrás dos vidros escuros, obscuros robôs correndo aos matadouros pelo pão nosso de cada dia que o diabo amassa, cospe e fode. São massa, insana massa. Só, a avenida semeia lâmpadas de mercúrio, brotam vermelhos céus – de fora e de dentro. Deep red redemption when the city sleeps.

Pesam os relógios, quartzo marca-passo musicado, desesperada sinfonia monossilábica escorre a pele, os cabelos, a força, os cânceres, as saudades.

TIC, TIC, TIC, TIC, TIC, TIC. TUM, TUM, TUM, TUM, TUM, TUM

Cardíacos acordes acordam pensamentos mortos. Anjos tortos, demônios narcolépticos, noturnos, alma fotofóbica com óculos de insônia. O resto é casca, zumbi de barba feita e sapatos polidos. Sob o sol, paletó, cartão de ponto, jornal, café, cigarros, bom dia, boa tarde, bom garoto, pega um biscoito, um graveto, um holerite, uma esposa, uma televisão.

A insônia ri no espelho. Do espelho. O rosto atrás do rosto, da máscara, ri o sorriso nicotinado do sorriso colgate. Olheiras fundas sorriem sinceros para a Lua leve que me leva, enfim, pra longe de mim. Sorrir antes que o dia nasça e tombe novamente na tumba.

TUM, TUM, TUM, TUM, TUM, TUM...

quinta-feira, 31 de julho de 2008

Escravoverso

Nota: ganha um prêmio quem descobrir todas as referências




Canta a cabeça decepada de Orfeu: “To be or not to be les flours du mal?”, reinar na Dinamarca ou apodrecer em Lesbos, a morte pela lira ou pela loucura é igualmente morrer pelo sexo ácido de Poesia.

Em esplêndido spleen rompe Rimbaud o coração que versa, pois coração não sangra verso, apenas sangra e do sangue faz-se tinta que tinge a alma de verso. É preciso morrer primeiro, de velhice antes dos trinta, de emboscada antes dos vinte, de fome um pouco por dia, para versar somente depois.

A Mensageira das Violetas violenta a solidão, esta pantera, Bela-flor Espanca a quimera que devora seus Anjos caídos. Brilha Byron na penumbra, pulsa Poe no corvo, o corpo espera o copo que embriaga a mente do velho Chinaski. O poeta mente. O poeta é um fingidor, diz o português Pessoa, multi-pessoa pastor-árcade-tabacaria-desassossego. É preciso partir-se primeiro para versar somente depois.
Goya goza Cronos devorando filhos, homens destruindo irmãos, burros cavalgando... burros, ora, que seriam além de burros? O colete de Frida Khalo não cala a tinta que delira. Dança Frida, com as pernas atrofiadas de Tolouse, com as putas atrofiadas de Tolouse, dança num Sonho de uma Noite de Verão, queima a cruz abssínia, bebe a não-arte no urinol de Duchamp. Quando queimarem os parnasos, os hereges louvarão: “Also Sprach Zarathustra!” É preciso enlouquecer, matar deus primeiro, para versar somente depois.

A Poesia, vagabunda iluminada de pé na estrada, planta flores no asfalto. o Uivo é a Canção da Inocência que beatifica bodsathivas no Casamento do Céu com o Inferno. Move as cordas do títere-poeta. É preciso versar, é preciso morrer, é preciso partir-se, é preciso obedecer. A Poesia, caros irmãos, é uma Imperatriz caprichosa. Poeta-escravo, é preciso viver primeiro. É preciso atravessar espelhos para ser poema, reflexo distorcido, migalha, fragmento da Poesia.
A Poesia existe antes de você. A Poesia existe antes do poema. A Poesia existe, o artista não. A Poesia É!
Simplesmente é...

É preciso versar.
É preciso sangrar.
É preciso servir.

Versar é preciso
Escravoverso ser...

sexta-feira, 18 de julho de 2008

O Francês

Todas as manhãs, sentado ao balcão da padaria em frente ao trabalho, pedia meu café, acendia um cigarro e via a figura magra atravessando a rua. A elegância era inegável, apesar da avançada idade. O Francês usava sempre paletó de tweed cinza, mesmo no verão. Ele parava em frente á padaria pontualmente ás sete da manhã, sorria e acenava para um dos garotos do balcão, que corria até a porta com um pedaço de pão velho, apressado em enxotá-lo antes que seu fedor espantasse a clientela. Ninguém gosta de mendigos.

Certa vez encontrei o Francês sentado em uma escadaria, de madrugada, e sentei-me no mesmo degrau. Fazia muito frio, e eu tinha comigo uma garrafa de conhaque. O Francês desconfiou, mas aceitou um gole. A garrafa estava no final, e ofereci um vinho no bar da frente. O Francês preferia cachaça. Bêbados sempre tem boa histórias.

O Francês chamava-se Armand Debussy, e tinha sido professor de literatura na universidade de Montmartre. Um dia, em férias em Amsterdã, foi com alguns colegas ao bairro vermelho, e lá conheceu Sandra. Foi amor á primeira trepada.

Sandra era uma mineirinha jeitosa, morena mingnon de boa família. Ela tinha tudo que uma menina podia querer - dinheiro, carro, estudo, uma família amorosa e gentil, uma casinha com cerca branca e um cão chamado Bob. Porém, a puberdade fez-lhe refém das pulsações abaixo da linha do equador. Era ninfomaníaca. Atrás da igrejinha, nos matagais da fazenda, na cachoeira ou na casa do professor de piano, baixava-lhe a Súcubus de olhos verdes, e em pouco tempo a cidade toda já conhecia sua fama e suas curvas. Papai era homem compreensivo, mas era também beato fervoroso, além de candidato á vereador. Não ficava bem que sua prole fosse afamada como bem público desde o quartel até o curral. Sandra foi enviada à um colégio suiço, que jamais teve a sorte de ver seu rebolado latino. A Súcubo estava livre.

Armand ficou encantado com a beleza Iracema de Sandra e pediu-lhe em casamento. A moça, claro, não trocaria a vida luxuriosa pra viver ao lado de um professorzinho careca, trinta anos mais velho, cheirando á naftalina e livros. Livros, imagine, que horror!

Armand, tomado pela imbecilidade esperançosa dos apaixonados, pediu demissão da universidade e se mudou pra Amsterdã, onde abriu uma livraria. Ia todas as noites visitar Sandra na zona. Ela recebia sorridente seus presentes, mas só consentia em atendê-lo uma vez por semana. Não queria abrir mão dos outros clientes, mesmo que o professor pagasse valor bastante acima da taxa de serviço cinco-estrelas (que incluia um ritual complexo envolvendo algemas, creme de leite e um maço de penas de pavão-real) apenas pra ficar observando ela penteando os cabelos, experimentando jóias, pintando as unhas. Ao final, Sandra abria a porta e ele ia embora, sem uma palavra sequer.

Foram cinco anos nessa rotina, até que os vinte e oito invernos começaram a abalar os lucros de Sandra. Não que ela tivesse em algum momento perdido a firmeza das carnes, não era isso. Estava cada dia mais bonita, com a segurança e sensualidade que só os anos fornecem á uma mulher. Mas, fato era, empresarios cansados das esposas preferem lolitas magricelas sentadas nos seus colos gordos, como bonecos de ventríloco que rebolam e engolem até última gota.
Finanças em risco, Armand parecia um investimento de baixo risco, capital de giro razoável e lucros á curto prazo. Casaram-se em um cartório, ele de terno, ela de porre.

Armand quis levá-la para Paris, mas Sandra não pretendia sair de Amsterdã. A sacanagem deixara de ser profissão, agora era praticamente um trabalho filantrópico. Sandra sumia por noites seguidas, reaparecendo na porta de casa dentro do carro de homens jovens e bonitos. A mulher chegava cheirando à whisky, maconha e suor, e Armand lhe preparava um banho de banheira e lhe massageava os pés. Ele era mais feliz do que nunca.

Passados dois anos, Sandra engravidou. Armand entrou em êxtase. Sabia que o filho não poderia ser seu, mas poderia criá-lo, dar-lhe seu sobrenome. Imaginava que o instinto materno fecharia um pouco as pernas de sua esposa. Saiu e comprou um berço, um ursinho e um enorme bouquet de flores.
Dois dias depois, Sandra decidiu fazer um aborto.

Viajaram para São Paulo. Sandra queria ser operada no Brasil, na clínica de um amigo, apesar da facilidade do serviço em Amsterdã. Armand, na patética letargia dos românticos, consentiu.

Na manhã da cirurgia, Sandra pediu à Armand que esperasse no hotel. Justo, afinal ele não estava presente no momento da concepção, não tinha porque estar no momento da execução.

O Francês esperou a tarde toda, e a noite toda também, e esperou por um mês trancado no quarto do hotel. Sandra lhe dera o telefone da clínica. Armand ligou. Era o número do zoológico municipal.

Durante um mês de espera Armand dormiu sentado em uma cadeira de frente pra a porta. Quando a esperança secou, deixou as malas no quarto e saiu apenas com o terno Pierre Cardim que usa agora. Voltava todas as noites ao hotel e perguntava pela esposa, mas não permitem mais que passe pela porta. O segurança do hotel deixa ele dormir escondido na garagem.
Armand espera há mais de um ano.

Levantei-me pra pagar a conta. Quando voltei ele já tinha ido embora. Deixou um guardanapo rabiscado em cima da mesa. Lia-se:

Le regard singulier d’une femme galante
Qui se glisse vers nous comme le rayon blanc
Que la luneonduleuse envoie au lac tremblant,
Quand elle y veut baigner sa beuté nonchalante


É a primeira estrofe de O Vinho do Solitário, de Baudelaire.

O Francês nunca mais passou pela padaria de manhã.